"O homem que nos trouxe as telas sensíveis ao toque agora quer que a gente toque em menos telas."
Quando a Ferrari revelou a Luce, praticamente tudo gerou discussão — o design do carro, o motor elétrico, a silhueta que dividiu opiniões. Quem não se lembra da declaração de Enzo Ferrari: “Você nunca irá ver uma Ferrari elétrica.”.
Mas tem um detalhe que, para quem trabalha com produtos e interfaces, merece atenção separada: o cockpit. Botões físicos. Alavancas. Mostradores. Num mundo onde a corrida era pra ver quem colocava a tela maior, a Ferrari foi na outra direção. E quem assinou isso foi Jony Ive. O mesmo Jony Ive que é responsável por como o mundo aprendeu a interagir com telas de toque.
Quando Ive não traz de volta os botões físicos, ele está dizendo que colocar um tablet no lugar do painel de um carro é uma solução preguiçosa para um problema que merecia mais atenção.
Pensa: você está em alta velocidade e quer aumentar a temperatura do ar condicionado. Com botão físico, sua mão já sabe onde está. Com tela, você tira o olhar da pista, procura o ícone, aperta na região mais ou menos certa, às vezes acerta, às vezes vai parar em outra função. É o tipo de atrito que nem parece atrito até que causa um acidente.
Na Luce, cada botão foi pensado para ter uma resposta mecânica, acústica e tátil específica. Os controles principais foram pro volante, que se move junto com o painel. A ideia era que o motorista nunca precisasse procurar nada, ou seja, as coisas simplesmente deveriam estar onde a mão já estava.
No design digital, existe um ciclo que se repete com regularidade: alguém resolve um problema real com uma boa solução, ela vira referência, aí vira padrão, aí vira obrigação, e em algum ponto do caminho a pergunta "isso resolve o problema do meu usuário?" some da conversa.
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O flat design foi assim. Depois de anos de interfaces carregadas, o minimalismo foi ótimo — até o momento em que a gente começou a tirar todas as referências visuais e o usuário perdeu a noção do que era clicável e o que era só decoração.
Com o chatbot aconteceu a mesma coisa. Parece que toda empresa sentiu que precisava colocar uma caixinha de conversa em algum lugar do produto. Sistemas de suporte que tinham fluxos bem mapeados foram substituídos por assistentes que às vezes ajudam e às vezes mandam você em círculos por oito mensagens até você desistir e procurar o telefone.
Busca interna que poderia ter filtros decentes virou um campo onde você descreve o que quer em linguagem natural e torce pro modelo acertar. Não é que chatbot seja ruim. Em vários contextos ele é genuinamente a melhor solução — quando a dúvida é aberta, quando o usuário não sabe bem o que quer, quando a linguagem natural reduz a barreira de entrada. Mas pra quem já sabe o que quer e só precisa chegar lá rápido, forçar uma conversa é atrito, não experiência.
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A Tesla fez uma coisa parecida com os carros. Pegou uma solução que funcionava bem em alguns lugares e decidiu que ela deveria funcionar em todos. Só que "mudar a temperatura do ar condicionado" e "navegar pelo mapa" são tarefas muito diferentes, com contextos de atenção muito diferentes, e empacotar as duas atrás da mesma tela é transferir o problema pro usuário.
Ive declarou que buscava um ponto de design onde a disposição dos elementos parecesse tão óbvia que nenhuma alternativa racional fosse possível. Isso é muito mais difícil do que parece. É muito mais fácil defender "a gente seguiu o padrão do mercado" do que defender "a gente chegou nessa conclusão depois de muito trabalho, pesquisas, simulações". A segunda exige que você questione premissas que todo mundo já aceitou, e isso tem um custo.
No fundo, o que a Luce questiona é o conforto de seguir o que já foi validado em outro lugar. Em muitos casos, as equipes criam a interface de aplicações baseado no que existe no mercado e não baseado em como o usuário vai utilizar e como fazer com que a experiência dele seja excepcional. Talvez seja por isso que a maioria dos produtos digitais, quando você coloca um do lado do outro, pareça a mesma coisa com cores diferentes.
A Ferrari Luce pode ser um ótimo carro ou não, isso ainda vai se provar. Mas o cockpit dela já fez uma coisa útil: lembrou que toda solução tem um contexto, e que contexto importa mais do que tendência.

Gilson Missawa
Head of Marketing & Portfolio







