A TI está preparada para o futuro que está criando?
No início dos anos 2010, vivemos a euforia do SMAC: Social, Mobile, Analytics and Cloud. Quatro tecnologias e tendências que revolucionaram o mercado e criaram espaço para a próxima onda, a Transformação Digital, com foco em Customer Experience, revisão dos processos de negócio e utilização de dados e inteligência. A principal perspectiva era clara: atender melhor aos clientes e usuários, de forma online e mais personalizada.
Dessa forma, a TI finalmente se posicionou no centro das estratégias corporativas, tornando-se essencial para aprimorar operações e viabilizar novos modelos de negócio.
Neste momento, vivemos uma nova euforia associada à IA, que promete acelerar o desenvolvimento de aplicações, gerar autonomia para as áreas de negócio e criar novas oportunidades de valor. Novamente, a balança pende para um "olhar para fora".
Sem dúvidas, todo este período trouxe uma grande aceleração para TI, resultando em maior alinhamento com as áreas de negócio e um desejado aumento de importância. Com isto também vieram novos desafios, dentre os quais podemos destacar:
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Crescimento acelerado de escala, com saltos frequentes e muitas vezes disruptivos;
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Aumento quase exponencial da complexidade dos ambientes;
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Integração como parte intrínseca das aplicações viabilizando os processos end to end;
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Aumento dos requisitos de nível de serviço (SLAs) e confiabilidade.
A reflexão que surge é: os investimentos em estruturas e governança de TI evoluíram na mesma velocidade? Conseguimos balancear com um "olhar para dentro"?
Qualquer avaliação neste sentido não será homogênea, sendo que em algumas empresas e setores percebemos atualmente um nível de maturidade bastante elevado. Mas será que isso é geral? Vamos avaliar algumas situações.
O perímetro de TI cresce em várias dimensões – novos serviços e modelos de negócios, mais aplicações, usuários, dados e códigos.
Não é raro encontrar catálogos de serviços com centenas ou mesmo milhares de itens, tornando quase inviável a evolução e automação dos processos. Os sintomas são conhecidos: aumento constante do número de incidentes e dos custos de sustentação, gargalos nas aplicações só percebidos na produção e dificuldades na identificação da causa raiz. São reflexos da pouca evolução dos processos de gestão e governança, muitas vezes endereçadas com aumento de equipe e/ou envolvimento constante dos especialistas.
Essa realidade torna-se ainda mais crítica com a complexidade crescente. A infraestrutura atual é híbrida, com múltiplas nuvens, serviços on-premises, containers, microserviços e stacks tecnológicos que não param de crescer em tamanho e diversidade.
Neste cenário, com que nível de precisão conhecemos a nossa infraestrutura? Temos claras as relações de dependência com os serviços? Conseguimos prevenir falhas e rapidamente restaurar aplicações críticas? Qual a qualidade das informações de disponibilidade e desempenho dos componentes e serviços? Quantas vezes sabemos dos problemas através dos usuários?
Muitas empresas ainda enfrentam baixa maturidade de itens como CMDB, auto-discovery e observabilidade, mesmo após a implantação de ferramentas especializadas. Esta falta de instrumentação afeta a qualidade dos serviços e sobrecarrega a equipe.
Outra área bastante vulnerável atualmente refere-se a integrações. Com que frequência uma alteração ou migração de uma aplicação requer mudanças ao longo do ecossistema? Com que precisão conseguimos dizer quais os clientes de uma determinada API? Ou mesmo quantas integrações redundantes temos para buscar a mesma informação?
A integração de aplicações dentro da mesma área já requer um alto nível de governança. A complexidade aumenta quando incluímos áreas diferentes ou até mesmo empresas diferentes, cada vez mais comum atualmente. Tratar as integrações como serviços, com a governança de uso e permissões, e a gestão de consumo são pré-requisitos para a sustentação, segurança e redução de TCO e time-to-market.
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Sem a devida atenção a esse tipo de questão, fica cada vez mais difícil atender às expectativas das áreas clientes, onde indisponibilidade gera custos adicionais e perda de receita, além de danos de imagem. A título de exemplo, o ITIC divulgou pesquisa onde o custo por hora parada de sistemas críticos em 41% das grandes empresas supera US$ 1M, em linha com a visão de um aumento da ordem de grandeza do impacto desde 2010.
Infelizmente, ainda é comum não ter SLAs bem definidos. O resultado é um descompasso: enquanto as áreas de negócios se sentem mal atendidas, a área de TI apresenta índices de disponibilidade satisfatória. Falta alinhamento de expectativas ou medições precisas. Por isso, as decisões de investimento tornam-se reativas e não estratégicas.
Lembrando que a utilização de IA irá trazer mais código, mais integrações e mais sistemas, com uma redução gradual do nível de domínio da equipe sobre o ambiente.
Certamente não acredito em frear as evoluções entregues por TI para se dedicar a "colocar a casa em ordem". Mas acredito que é necessário balancear melhor, trazendo foco para sua estruturação.
É necessário trabalhar de forma paralela. Podemos até reutilizar o termo "bi-modal". Ter sim um viés forte de evolução de casos de uso funcionais e novos negócios, balanceando com os aspectos estruturantes, incluindo processos, ferramentas e automação de TI, e com coragem de defender investimentos, dedicar talentos e garantir a execução de roadmaps estruturados. Alguns investimentos geram business cases diretos, enquanto outros precisarão ser inseridos em programas maiores de eficiência ou modernização.
O cenário atual é favorável: há no mercado um conjunto robusto de melhores práticas, tecnologias e conhecimento capaz de sustentar essa transformação.
Tratar a eficiência de TI como prioridade é investir na sustentabilidade do negócio.
A maturidade operacional não reduz custos apenas, mas aumenta a capacidade de inovação, por exemplo com a liberação de especialistas e talentos.
É mais fácil criar algo novo quando não estamos apagando um incêndio. Ignorar esse equilíbrio costuma sair caro: crises decorrentes de interrupções de serviço, falhas de segurança ou processos de M&A tendem a expor fragilidades que poderiam ter sido evitadas com uma base operacional mais sólida.
É hora de investir na eficiência digital, equilibrando os ganhos de eficiência operacional das áreas de negócio com a otimização do ambiente de TI, que os sustenta.

Laerte Sabino
CEO na Icaro Tech
Matéria Publicada:
Portal TI Inside
28.10.2025








